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Revista do Farmacêutico

PUBLICAÇÃO DO CONSELHO REGIONAL DE FARMÁCIA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Nº 126 - MAI - JUN - JUL / 2016

ESPECIAL

 

Farmácia missionária: cuidar de índios 

Farmacêuticos que trabalham em aldeias relatam a diferença que faz a assistência farmacêutica na vida de uma população esquecida

 

indios01Mais de 40 mil atendimentos e quase 7 mil medicamentos dispensados durante a expedição Voluntários do Sertão Auêry! Essa é uma das palavras mais ouvidas pelos profissionais, entre eles farmacêuticos, que prestam serviços à população indígena em diversas regiões do país. Obrigado, no dialeto pataxó, é o “pagamento” mais que especial por atravessar o país e levar orientação e atendimento de qualidade a um povo esquecido, em locais longínquos. 

O último Censo Demográfico realizado pelo IBGE em 2010 apontou a existência de 896,9 mil indígenas no Brasil. E é para atender essa população que muitos farmacêuticos deixam sua rotina e, voluntariamente, participam de ações que envolvam equipes de saúde.

Dr. Marcos Pinheiro, farmacêutico clínico, é o responsável técnico nas ações da Organização Voluntários do Sertão desde 2010. A 16ª edição aconteceu em abril quando o dr. Marcos foi a Santa Cruz de Cabrália (BA), em parceria com a Sesai (Secretaria Especial da Saúde Indígena) e do DSEI (Distrito Sanitário Especial Indígena), com nove farmacêuticos e uma equipe de 900 pessoas composta por médicos de várias especialidades, dentistas, enfermeiros, psicólogos, pilotos, cozinheiros, motoristas, auxiliares administrativos e populares para realizar atendimento médico, odontológico, assistência farmacêutica, palestras e distribuição de kits de saúde e higiene pessoal.

A caravana é composta por caminhões, aviões e vans que cortam o país e realizam uma maratona de atendimento durante uma semana. De 150 farmacêuticos e estudantes de Farmácia, apenas dez foram selecionados para o trabalho voluntário. Eles precisaram reunir características como conhecimento em gestão e distribuição de medicamentos, doenças básicas, informática, capacidade de administrar o estresse, grande carga de trabalho e comprometimento com os objetivos e valores dos Voluntários do Sertão. Ou seja, mais do que querer, foi preciso estar qualificado a esse tipo de prestação de serviços. 

Dr. Marcos encontrou uma região carente e com prevalência da tribo dos Pataxós, com cerca de 10 mil integrantes em 20 aldeias, todas com muita dificuldade de acesso a tratamentos e medicamentos. “Nosso objetivo foi levar assistência farmacêutica aos pacientes indígenas, que munidos de receita médica foram atendidos pelos farmacêuticos e orientados sobre como deveriam fazer uso do medicamento para o restabelecimento da saúde”.

indios02À esquerda, dr. Marcos Pinheiro, farmacêutico responsável técnico pela organização Voluntários do Sertão, e à direita, a farmácia montada para atender a população de Santa Cruz de Cabrália (BA)

No total, foram 40.450 atendimentos, com 4.371 receitas atendidas e 6.804 medicamentos dispensados. O tempo escasso foi a maior dificuldade, já que era preciso fazer muito mais àquelas pessoas. “O mais impressionante foi a carência dos idosos e das crianças que necessitam muito de atendimento em saúde. Após o mínimo gesto dispensado, nos agradeciam com o maior presente do mundo, o sorriso, o que fortalece nosso senso humanitário. Se voltaria outras vezes? “Pode até ser que não resolveremos os problemas de todos, mas com certeza melhoraremos esses sofrimentos pelos nossos cuidados e atenção. Com toda a certeza retornei de lá um ser humano mais humano e que transforma vidas. Voltarei sempre que Deus me permitir”.

indios03Dra. Raquel durante missão em comunidade no Amazonas com índices altos de alcoolismo e gravidez precoce FARMACÊUTICA NAS TRIBOS 

Quem vive na correria de uma metrópole como São Paulo pode não reparar que na capital exista um local preparado para prestar assistência farmacêutica à população indígena. Na Casa de Apoio à Saúde Indígena (Casai/SP), os índios de aldeias de todo o país, que estão abrigados para tratamento em São Paulo, recebem suporte para garantir o atendimento pelo SUS. 

Responsável técnica pela unidade do Casai/SP há cinco anos, dra. Raquel da Silva Araújo analisa as prescrições médicas trazidas das consultas, dispensa medicamentos, orienta quanto ao uso e armazenamento, registra reações adversas ou efeitos colaterais, encaminha um relatório ao médico e realiza muitas outras atividades relacionadas à Farmácia. 

As dificuldades não faltam no dia a dia, como a de lidar com diferentes etnias e culturas. Por exemplo, os índios da etnia Kayapó não comem carne vermelha enquanto o familiar estiver enfermo; os Guaranis possuem pressão arterial baixa, por esse motivo, não é recomendado o uso de dipirona sódica.

“Lidar com essas diferenças não é fácil, demandam tempo e muita pesquisa. Por se tratar de assistência de alta complexidade, não possuímos convênio com farmácias e 50% dos medicamentos prescritos não fazem parte da Lista Rename, então preciso ir atrás de doações em instituições e hospitais”. 

Ela também precisa interceder quando um médico prescreve um anticoncepcional para alguma indígena. “Precisamos conversar com o cacique, pajé, esposo ou pai da índia para somente após fazer a administração. A maior dificuldade é passar isso para equipe médica, que não compreende essa realidade”.

 

indios04Embarcação dos “Doutores das Águas” navegou por Roraima, nas comunidades de Remanso, Cachoeirinha, Canauini, Terra Preta, Tanauau, Itaquera, Bom Jardim, Aldeia Niteroi, Ariquemes, Araras, Aldeia Kwata (etnia Mundurucu)DOUTORES DAS ÁGUAS

Aventurar-se por duas semanas em uma embarcação, totalmente isolada, com uma equipe que não conhecia ninguém e ainda tendo que provar aos responsáveis pelo projeto “Doutores das águas” a importância do farmacêutico. Este foi o desafio recebido pela dra. Raquel ao obter o aval para montar uma Farmácia com três toneladas de medicamentos em um barco que percorreu onze comunidades indígenas em Roraima. 

Antes da viagem, a missão foi listar e identificar (com a aprovação do coordenador médico), os medicamentos que seriam levados ao porto de Manaus, com destaque para vermífugos e vitaminas. Durante o percurso, o trabalho da equipe de diversos profissionais foi intenso, das 6h às 23h30. “Encontrei muita miséria, sem nenhum tipo de assistência, mas todos com um sorriso estampado no rosto. Nosso objetivo foi servir, porém aprendemos a valorizar o mínimo, a reclamar menos enquanto aquela população não tem nem comida”. Um atendimento médico demora quatro dias de voadeira (embarcação pequena), e, muitas vezes, se deparam com a ausência do médico, então recorrem aos raizeiros e curandeiros da região. 

indios05Trabalho dos farmacêuticos começa antes da viagem na seleção e identificação dos medicamentos

Sobre o aprendizado adquirido com a experiência, dra. Raquel tem opinião semelhante à do dr. Marcos. “Faço o que amo e procuro fazer da melhor forma possível, mesmo sem recurso. Por meio dos nossos pequenos gestos e atos, influenciamos outras pessoas a fazerem o bem. Quando estamos unidos por um mesmo propósito, tudo flui e conseguimos compartilhar nosso conhecimento nos doando para um povo esquecido à beira dos rios amazônicos”. 

Por Thais Noronha

 

 

 

 

     

     

    farmacêutico especialista