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Revista do Farmacêutico

PUBLICAÇÃO DO CONSELHO REGIONAL DE FARMÁCIA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Nº 126 - MAI - JUN - JUL / 2016

CAPA - RETRATOS DE UMA EPIDEMIA MORTAL

 

Por trás dos números, vidas

Maior e mais mortal epidemia de gripe H1N1 da história do país escapa do noticiário nacional, mas mobiliza profissionais de saúde como os farmacêuticos

 

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Há uma notícia que tem escapado da grande imprensa brasileira, afundada nos casos escabrosos de corrupção da Operação Lavajato, que tem passado despercebida até mesmo das ferrenhas discussões das redes sociais: o Brasil enfrenta a maior epidemia de gripe Influenza do tipo H1N1 da sua história. Os números são alarmantes. Até o fechamento desta edição, haviam sido confirmados no país cerca de 5.871 casos, que resultaram na morte de 1.121 pessoas. Histórias interrompidas como a da médica cubana Clara Elisa Gonzáles, de 42 anos, que contraiu o vírus e morreu dias depois no município de Barreiras, oeste da Bahia.

Para completar o quadro, trata-se de uma epidemia paulista. Do total de casos, 2.491 foram registrados no Estado, dos quais 475 culminaram em óbitos, o equivalente em vítimas a mais de dois acidentes aéreos de grandes proporções, fatos que, quando acontecem, mobilizam dias de noticiário, nos quais geralmente os mortos são homenageados.

Ninguém homenageou as vítimas do H1N1. A Revista do Farmacêutico vasculhou os arquivos de jornais regionais, os únicos a noticiar com espanto a voracidade da gripe em dizimar vidas, pessoas que certamente passaram numa farmácia com tosse ou dores pelo corpo, atrás de analgésicos ou qualquer outro medicamento que aliviasse o mal-estar. Traumatizadas, as famílias procuradas diretamente, em sua maioria, se recusaram a recordar o episódio.

No Vale do Ribeira, o caso da jovem Daniela, noticiado pela TV Tribuna de Santos, chocou a região. Ela morreu grávida aos 19 anos. De acordo com o relato de familiares ao telejornal, embora tenha ido a unidades locais de saúde, a jovem sempre retornava para casa com os mesmos sintomas. “Todos os médicos disseram que essa falta de ar era normal da gravidez, pois o bebê estava crescendo e apertando os pulmões dela”, relatou Eliana Gomes Silva, irmã da jovem.

De acordo com a Vigilância Sanitária de Registro, Daniele alegava falta de ar, mas não apresentava febre nem os outros sintomas da infecção pelo vírus. Foi somente após uma investigação mais detalhada que se chegou ao diagnóstico de Influenza.

Especificamente no caso das grávidas, grupo considerado de risco, o H1N1 já matou 21 gestantes no país até o momento. O bebê de Daniela nasceu com apenas seis meses de gestação e passa bem.  Dos demais grupos vulneráveis, segundo a Vigilância Epidemiológica, cerca de 20% das vítimas eram crianças abaixo de 5 anos de idade, 27,9% eram cardiopatas, 16,4% diabéticos e 8,2% pessoas com mais de 60 anos de idade (veja quadro).

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Há óbitos em grupos de risco não tão evidentes como esses. Niltair Inácio, de 45 anos, por exemplo, permaneceu internado durante seis dias no Hospital de Base de São José do Rio Preto, interior do Estado, segundo o jornal “Diário da Região”. Ele sofria de obesidade e acabou morrendo no dia 12 de abril de 2016 em decorrência das complicações da gripe. Niltair foi a quarta vítima de H1N1 apenas no município de Rio Preto. Por conta do rápido avanço da gripe no noroeste do Estado, a campanha de vacinação foi antecipada em 67 cidades da região em caráter de emergência.

Mas houve histórias de pessoas fora do grupo de risco e aparentemente saudáveis que não escaparam das garras do vírus. O pedreiro Claudionor Fernandes de Brito morreu aos 36 anos vítima de H1N1. De acordo com o depoimento de familiares também ao jornal “Diário da Região”, ele permaneceu internado no Hospital de Base de São Jose do Rio Preto durante 14 dias.  

O pai de Claudionor, o aposentado Antero Fernandes Brito, de 64 anos, afirmou à reportagem local que o filho estava saudável até apresentar os sintomas de gripe. Ele procurou o posto de saúde, em Mirassol, no dia 26 de março, foi liberado, e, no dia seguinte, voltou a passar mal, retornando à unidade de saúde. “De lá, ele já saiu entubado e ficou 24 dias em coma no hospital. O que deixa a gente sem entender é porque ele não tinha nenhuma doença, não bebia, não fumava, era muito forte”, relatou o pai da vítima, acrescentando: “A mulher dele está grávida de 4 meses e ele não vai estar mais aqui para conhecer o primeiro filho, que era um sonho deles.”

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GRIPE MUNDIAL

capa04Em 1918, ocorreu uma pandemia do vírus influenza que se espalhou por quase toda parte do mundo, a Gripe Espanhola, causada por uma cepa do vírus Influenza A do subtipo H1N1Epidemias sazonais como o Influenza infectam por ano de 3 a 5 milhões de pessoas no mundo, segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS). Desse total, cerca de 500 mil são vítimas fatais. A Revista entrevistou o farmacêutico Rogério Lima, que trabalha no escritório Organização Panamericana de Saúde (Opas), em Brasília, na seção de Doenças Transmissíveis e Análise de Situação de Saúde. Segundo Lima, entre os dias 30 de maio e 12 de junho de 2016, ou seja, em pouco mais de uma semana, cerca de 3.800 pessoas contraíram o vírus Influenza em 82 países.

Registros antigos apontam que o H1N1 infectou humanos, pela primeira vez, no começo do século, a partir das aves, o que desencadeou a histórica pandemia conhecida como Gripe de 1918 ou Gripe Espanhola. Desde então, por conta do contato entre humanos, suínos e aves, o vírus veio sofrendo inúmeras mutações até dar origem a um novo vírus Influenza A (H1N1), em 2009, sendo deflagrada a epidemia a partir do México.

Segundo os especialistas da OMS, a característica mais preocupante do Influenza é a alta taxa de variabilidade de mutações nas cepas. Por esse motivo, há pouca ou nenhuma imunidade prévia contra ele por parte das pessoas infectadas. Isso permite que o vírus se espalhe rapidamente e infecte muitos tecidos do corpo. O período de incubação varia de 2 a 5 dias.

capa05Microfotografia de Influenzavirus AVACINA

A vacina contra a gripe Influenza é feita com o vírus morto.

O medicamento contém apenas algumas proteínas específicas do vírus, chamadas de antígenos, que são capazes de estimular o sistema imunológico a produzir anticorpos.

Atualmente, há duas vacinas disponíveis: a trivalente, oferecida gratuitamente pelo SUS, e a tetravalente ou quadrivalente.  A proteção contra o H1N1 está contida nas duas. São indicadas para todas as pessoas, exceto para bebês com menos de 6 meses de idade. Dependendo do fabricante da vacina, um dos tipos da tetravalente só pode ser administrado em crianças maiores de 3 anos de idade. A trivalente pode ser usada por todas as pessoas acima de 6 meses de vida. Crianças de 6 meses a 1 ano têm que tomar duas doses com intervalo de um mês. Adultos acima de 60 anos, cardiopatas, diabéticos e grávidas integram os chamados grupos de risco.

A vacina tem sido a melhor arma. O Ministério da Saúde começou a enviar os carregamentos de vacina já no início de abril. No primeiro semestre deste ano, foram entregues 5,7 milhões de doses somente para São Paulo, com prioridade para profissionais da saúde, idosos, gestantes e crianças. Por meio de uma mobilização do CRF-SP, os farmacêuticos foram incluídos neste grupo. (leia na página ao lado)

capa06Sintomas respiratórios como tosse e outros tornam-se mais evidentes com a progressão da doença e se mantêm de três a cinco dias após o desaparecimento da febre SINTOMAS 

A H1N1 inicia-se geralmente com febre alta, seguida de dor muscular, dor de garganta, dor de cabeça, coriza e tosse seca. A febre é o sintoma mais importante e dura em torno de três dias. Os sintomas respiratórios como a tosse e outros tornam-se mais evidentes com a progressão da doença e se mantêm de três a cinco dias após o desaparecimento da febre. Alguns casos apresentam complicações graves, como pneumonia, necessitando de internação hospitalar. Devido aos sintomas em comum, a H1N1 pode ser confundida com outras viroses respiratórias causadoras de resfriado.

 

Por Wesley Alves



 

 Farmacêutico enquadrado no grupo prioritáriocapa07Ao todo, foram entregues 5,7 milhões de doses de vacina em São Paulo, com prioridade para profissionais da saúde, idosos, gestantes e crianças

 Para preservar o direito do farmacêutico como profissional de saúde, visto diversos relatos recebidos no CRF-SP sobre as dificuldades enfrentadas para receber a vacina contra o H1N1, o CRF-SP se mobilizou em duas frentes de ação. Uma das providências foi o envio de ofício endereçado ao secretário estadual da Saúde, dr. David Uip, solicitando não só a inserção em caráter de urgência dos farmacêuticos no grupo prioritário de vacinação, bem como que “oriente os funcionários das unidades de saúde responsáveis pela aplicação de vacinas sobre essa questão, para que o direito do farmacêutico fosse respeitado, não somente neste ano, mas também em outras campanhas que visam prevenir essas e outras doenças, visto o risco que esse profissional está exposto em seu ambiente de trabalho.”

Outra iniciativa foi ingressar com uma Ação Civil Pública contra a União, já no fim de março, pedindo que o profissional fosse incluído no grupo prioritário do programa de vacinação contra o H1N1, em caráter de urgência.

Em decorrência dessa ação, um mês após, o Ministério da Saúde emitiu a Nota Informativa 121/2016, na qual reconheceu que o farmacêutico está enquadrado neste grupo prioritário a ser imunizado contra o vírus da Influenza.

Apesar da iniciativa ter sido do CRF-SP, a medida abriu precedente para que farmacêuticos de todo o país também fossem vacinados.  De acordo com a Nota Informativa assinada pelo Departamento de Vigilância das Doenças Transmissíveis, “...é louvável a preocupação do Conselho Regional de Farmácia do Estado de São Paulo e neste sentido conforme exposto acima, os farmacêuticos fazem parte do grupo alvo trabalhadores de saúde, já definido pelo Ministério da Saúde como prioritário para o recebimento da vacina Influenza...”

Devido à velocidade da epidemia em contaminar profissionais de saúde, ao fato de as Notas Informativas do Ministério não terem a mesma velocidade em atingir os pontos de vacinação nos municípios e ao prazo exíguo do período de vacinação, o CRF-SP orientou os farmacêuticos a comparecerem aos postos de vacinação munidos de cópia da nota, disponível no link http://portal.crfsp.org.br/images/arquivos/vacinacao_ministerio_saude.pdf. 

 

 

     

     

    farmacêutico especialista