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Revista do Farmacêutico

PUBLICAÇÃO DO CONSELHO REGIONAL DE FARMÁCIA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Nº 124 - JAN - FEV / 2016

ENTREVISTA / Prof. Leandro Karnal

 

O prejuízo da desonestidade e o lucro da ética

Professor-doutor da Unicamp fala à Revista do Farmacêutico que brasileiros vivem numa encruzilhada ética

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Principal atração do seminário ‘Farmácia: Que futuro estamos construindo?’, evento realizado no Dia do Farmacêutico (20/1) como parte da programação do XVI Encontro Paulista de Farmacêuticos, o professor-doutor da Unicamp e historiador Leandro Karnal falou para um auditório lotado sobre questões éticas do cotidiano e do convívio profissional e social. Na entrevista concedida à Revista do Farmacêutico, ele aprofunda a reflexão sobre a relação que existe entre a ética do povo brasileiro e da classe política do país e afirma: “Só relações éticas interpessoais e profissionais podem construir negócios sólidos e relações duradouras.”
Leia a seguir os principais pontos.
Por Carlos Nascimento

 

LSP 8089Revista do Farmacêutico – Como o senhor analisa o chamado “jeitinho brasileiro” e sua relação com o momento político do país?
Leandro Karnal - Estamos sendo confrontados com a nossa consciência moral num plano maior. Acho que o Pinóquio está dialogando com o Grilo Falante. Passamos muito tempo achando que tudo era válido e vemos agora as consequências dessa noção. É um momento único que pode transformar o país. Falta uma compreensão maior de que governos éticos nascem de sociedades éticas. Assim, delitos menores e sem relevância enorme, como andar pelo acostamento, não causam e nem são comparáveis a grandes delitos como roubo da verba da merenda escolar num sistema educacional. Porém, estão na mesma pirâmide da vantagem e do jeitinho.

RF - Nesse contexto, como o senhor enxerga o apelo à ética que, de tempos em tempos, domina o debate no Brasil?
LK - De tempos em tempos sempre parece um pouco pessimista, pois implica quase dizer que é uma moda passageira. O preço da ética é a ação constante. Se prendermos os atuais corruptos e descansarmos, tudo estará como sempre em pouco tempo.

RF - É possível mudar alguma coisa a partir desses movimentos?
LK - Sim. Importante ressaltar: toda história humana é feita por homens. Isto significa dizer: nada é fixo ou imutável. Tudo pode melhorar ou piorar sempre. Nós não pensávamos em uso racional de água há dez anos e hoje todos pensam e alguns fazem isso. Foi uma mudança, nascida da educação e da necessidade. O mesmo pode ser dito de várias questões. Podemos sempre reconstruir nosso mundo e partir de novos valores. Nada é eterno em História.

RF - Os farmacêuticos venceram recentemente uma batalha de 20 anos, ao conseguirem aprovar a nova lei 13.021/14. De tempos em tempos, surge no Congresso uma nova lei ou medida provisória para derrubar essa conquista. Como o senhor analisa a postura dos empresários nessa questão?
LK - Volto à questão: nenhuma vitória é permanente. Não adianta estabelecer uma lei boa e ir dormir. O preço da liberdade e dos direitos é a eterna vigilância. Funciona como mandar filho escovar os dentes: se você mandar uma vez e largar, todo filho será um banguela. Conseguiram o direito? Perfeito, parabéns à organização da categoria. Agora: pressão para manter e para ampliar.


RF - Como o senhor enxerga o duelo entre o farmacêutico que luta para combater a automedicação, restringindo, muitas vezes, o volume de vendas da farmácia, e o empresário, que busca na “empurroterapia” uma maneira de alavancá-lo?
LK - Sempre o choque entre lucro e ética. Mas há uma novidade: hoje a ética dá lucro. Uma empresa idônea é considerada confiável e isso provoca um afluxo maior de consumidores. Quando o lucro desenfreado toma conta, ele funciona sim, mas não por muito tempo. Cativar clientes não é apenas recomendar aspirinas, mas deixar claro que o objetivo da farmácia é a saúde, e, para isso, o lucro vem depois. Sei que na prática é um pouco mais difícil. Pela nossa tradição hipocondríaca e de automedicação, não se trata de empurrar nada, apenas impedir que coisas muito equivocadas sejam compradas.

RF - Nós, brasileiros, somos mais gananciosos em atividades comerciais?
LK - Temos uma sede pelo lucro imediato. Mas surge uma postura imediata, do trabalho de médio e longo prazo. De novo: cresce a consciência de que compromissos de sustentabilidade, práticas éticas e outras questões podem agregar valor à marca. Nossos impostos são altos, mas o mais importante: não vemos retorno.

RF - Como o senhor analisa os sistemas de saúde brasileiro público e privado do ponto de vista ético?
LK - Um problema grave. Do ponto de vista otimista: somos o maior sistema público de saúde gratuita do mundo. Claro que não é gratuita, de fato. Custa muito, mas temos. Talvez o sistema de saúde erre por permitir coisas como aposentadorias precoces, pois no Brasil preferimos ampliar a faixa de atendimento do que melhorar a qualidade dele. Talvez a boa fórmula seja aumentar um pouco a eficácia e sustentabilidade econômica da previdência e diminuir a eficácia de lucro dos planos privados. Cada sistema pode aprender muito com o outro.

LSP 8255“Impossível prever futuro. Mas eu digo que eu gostaria de estudar: 2015/2016 foram os anos nos quais os brasileiros começaram a virar a mesa da corrupção”RF - Quais são as características principais de um farmacêutico ético, em sua opinião de especialista em ética e também de paciente?
LK - Primeiro passo é mirar na atividade fim. O fim de médicos, de enfermeiros, de farmacêuticos e outros é a saúde das pessoas. Quando perdemos foco na atividade fim, começamos a fazer concessões. Segundo, é lembrar que a desonestidade funciona num primeiro instante, mas não para sempre e que só a vida ética é a vida válida. Só relações éticas interpessoais e profissionais podem construir negócios sólidos e relações duradouras.


RF - Se o senhor fosse um profissional absolutamente ético, mas trabalhasse para uma empresa corrupta, qual seria a sua atitude?
LK - Os malfeitores, diz Etienne de la Boetie, não têm amigos, apenas cúmplices. Eles não se respeitam. Logo, quem fere o direito do público, em pouco tempo, ferirá o seu. Quem rouba, vai roubá-lo. Quem é desonesto vai dirigir isso para você também. Então, um bom motivo para sair desse tipo de empresa-armadilha é que você também será vítima.


RF - Para finalizar, retomemos às perguntas iniciais: que história será contada sobre esse período do Brasil no futuro?
LK - Impossível prever futuro. Historiador não é profeta. Mas eu digo a que eu gostaria de estudar: 2015/2016 foram os anos nos quais os brasileiros começaram a virar a mesa da corrupção política neste país.