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Revista do Farmacêutico

PUBLICAÇÃO DO CONSELHO REGIONAL DE FARMÁCIA DO ESTADO DE SÃO PAULO
Nº 122 - JUN-JUL-AGO / 2015

 

Uma farmacêutica na reitoria da Unifesp
Dra. Soraya é a primeira não-médica no cargo de uma das mais tradicionais universidades do país conhecida pela Medicina

 

 

 

Desde a graduação em Farmácia, há 30 anos, pela Universidade de São Paulo (USP-Ribeirão Preto), a dra. Soraya Smaili traçou uma carreira de sucesso no meio acadêmico. Foi docente, pesquisadora no exterior, contribuiu com seus conhecimentos para a pesquisa brasileira e, há dois anos e meio, é a reitora de uma das instituições de ensino mais importantes do país, a Universidade Federal de São Paulo (Unifesp). Como se não bastasse o mérito por assumir o elevado status, quebrou vários paradigmas da tradicional instituição: é a primeira mulher, a mais jovem e uma inédita reitora não-médica a assumir o cargo.

A dra. Soraya é docente e militante da universidade desde 1992. Em sua avaliação, a instituição vivia um contexto que apontava para uma reitoria comandada por outro profissional não-médico, mas a mudança ocorreu mais rápido do que imaginavam. “Aceitamos o desafio de formar um grupo para concorrer e fizemos uma belíssima campanha. Fomos eleitos pela comunidade, alunos, funcionários e professores, depois pelo conselho universitário”, conta a reitora, que foi nomeada após o processo eleitoral em 2013 pela presidente Dilma Rousseff.

Assumiu uma universidade em plena transformação e que passou por uma acelerada expansão: passou de mil estudantes de graduação para 11 mil, de 500 docentes para 1,5 mil, estava presente apenas na cidade de São Paulo e hoje possui campi em seis cidades do Estado, além de ser responsável pelo maior hospital da rede federal, o Hospital São Paulo. Hoje, administra um orçamento estimado em R$ 730 milhões, segundo dados do ano passado.
No início, relata a reitora, ela foi recebida com desconfiança, o que considerou natural, já que a comunidade não sabia o que o seu grupo poderia realizar. “Hoje, digo que essa desconfiança não existe mais, está superada. Sabemos que a mudança que queremos não será feita da noite para o dia”, afirmou a dra. Soraya, que nesse momento quer consolidar sua administração e continuar na luta pelo ideal de uma universidade plena, que alie juventude e tradição e continue a ser referência em pesquisa.

TRAJETÓRIA

Filha de imigrantes libaneses, que trabalharam fortemente para oferecer uma boa educação aos filhos, seu pai, comerciante, chegou muito jovem ao Brasil e se integrou rapidamente à comunidade local. Dra. Soraya é a caçula e única mulher entre os filhos. Tem um irmão economista, outro advogado e outro que também seguiu no comércio, uma profissão tradicional entre os descendentes da sua nacionalidade.

Na adolescência, chegou a ter interesse em seguir a carreira no jornalismo porque, desde cedo, desenvolveu boa escrita, gostava de ler e possuía habilidade destacada para se comunicar com desembaraço. No entanto, o interesse e curiosidade pelas leituras científicas falaram mais alto.

“Escolhi a farmácia por ser uma carreira tradicional e sólida, por ter muitas disciplinas e também porque tinha desejo de atuar na área de saúde. Isso se juntou à minha vontade de pesquisar, de escrever e a minha curiosidade. Foi uma opção perfeita para mim”, afirma com entusiasmo.

Terminada a graduação, já sabia que iria trilhar a carreira acadêmica. Ingressou no melhor programa de mestrado e doutorado em farmacologia na época, na Escola Paulista de Medicina (EPM) e, ao final do doutorado, prestou Cerimônia de posse, em 2013. Carreira acadêmica exemplar leva a farmacêutica à reitoria de uma das universidades mais importantes do país, tradicionalmente comandado por médicosCerimônia de posse, em 2013. Carreira acadêmica exemplar leva a farmacêutica à reitoria de uma das universidades mais importantes do país, tradicionalmente comandado por médicosconcurso e integrou a equipe de professores da EPM.

A sede pelo conhecimento impulsionou a jovem pesquisadora a fazer o pós-doutorado no exterior, no National Institute of Health, uma das principais instituições de pesquisa dos Estados Unidos, onde teve acesso aos melhores laboratórios e permaneceu por dois anos e meio. Foi convidada para trabalhar e permanecer no exterior, mas a opção foi voltar.
“Sou uma pessoa de valores. Fui ao exterior com recursos públicos, como bolsista, então era meu dever implantar a técnica aqui e desenvolver o meu país. Pode parecer meio romântico hoje em dia, mas para mim foi um compromisso”, conta.

Ativista da universidade pública desde os tempos de estudante, trabalhou para atrair recursos para a melhoria do ensino e para desenvolver projetos de pesquisa. “O envolvimento com a universidade me fez ter esse encontro com a política acadêmica. Tenho clareza dessa trajetória. Se a gente não fizer isso, não se fortalece como professor, nem como pesquisador”, completou.

Dra. Soraya afirma que depois da passagem pela reitoria, continuará docente e pesquisadora. “Volto para o laboratório com muito gosto. Tenho muita paixão pelo que faço. Posso usar o que aprendi aqui em benefício da instituição.”
Amante do cinema e da cultura árabe, juntou as duas paixões ao participar da fundação do Instituto da Cultura Árabe, que já tem dez anos de atividades e foi concebido por meio da união de intelectuais que se interessam pela cultura do Oriente Médio. Essa mobilização resultou na Mostra Mundo Árabe de Cinema, da qual é curadora. Em agosto, o Instituto realizou a décima edição do evento.

Por Carlos Nascimento